AS PAREDES TAMBÉM GUARDAM HISTÓRIAS

por Marcelo D'Avilla ·

Eu sou Marcelo D’Avilla, artista, performer e curador. Há algum tempo, venho cuidando das paredes de uma casa muito antiga no coração da Sé. A LoveNOX - Casarão do Saber Erótico - comemorou quatro anos, o local tem cerca de 120 anos e passou quase metade da sua existência fechada. Quando chegamos, havia uma casa esperando para voltar a respirar. Junto com Mayanna Rodrigues, idealizadora e fundadora que tinha esse sonho e eu humildemente pude ajudar o sonho da minha irmã e parceira nessa história, começamos a imaginar onde colocar os móveis, os livros, os objetos, os corpos e, principalmente, as histórias que viriam ocupar aquele lugar.

Aos poucos, as paredes começaram a contar coisas.

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Hoje, a LoveNOX abriga uma coleção que talvez seja difícil chamar simplesmente de acervo. São obras doadas por artistas, peças de colecionadores, trabalhos de artistas independentes, burlescos, performers e criadores do universo erótico. Mas muitas dessas obras têm uma particularidade: elas aconteceram antes de se tornarem obras. São restos de uma noite, consequências de uma performance, registros de um corpo em ação. Uma fotografia que sobreviveu a um encontro. Uma meia que saiu de uma noite de podolatria e ganhou moldura. Uma pintura feita com o próprio corpo. Um objeto que, depois de atravessar uma experiência, encontrou seu lugar na parede.

Temos inclusive uma obra de Alair Gomes, cedida pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Uma obra que somente existe aqui, nesse endereço, cercada por outras histórias que talvez nunca tenham imaginado dividir a mesma parede.

Eu gosto de pensar que a LoveNOX é um museu íntimo. Um museu sem silêncio obrigatório, sem distância segura entre a obra e quem olha. Um lugar onde as pessoas podem sentar no sofá, folhear um livro, encontrar uma fotografia, assistir a uma performance, fazer uma testagem de HIV, conversar, aprender, desejar. Aqui, a arte não fica necessariamente atrás de uma corda. Às vezes ela está no corredor. Às vezes no corpo de alguém. Às vezes ainda está acontecendo.

A primeira exposição que fizemos se chamava 25 Obras em Busca de um Sugar Daddy. Eram trabalhos impressos em sulfite, ainda sem o acabamento definitivo. Cada pessoa podia escolher uma obra e se tornar, de alguma maneira, responsável por fazê-la existir. O patrono/sugar daddy ou matrona/sugar mommy, bancava a finalização, o vidro, a moldura. A obra saía do papel e ganhava permanência. Hoje, elas ocupam a sala principal da casa.

Depois veio a expo do Festival PopPorn, uma exposição que não tinha exatamente obras de arte. Tinha história. Uma linha do tempo de quinze anos de um festival, transformando memória em exposição e documento em matéria artística.

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E agora temos o 24/7, uma intervenção criada a partir do Dia Internacional do BDSM, realizada por mim, Mayanna Rodrigues, Chico Castro e pelo artista plástico Ise. O corredor da casa se tornou suporte para uma nova intervenção, como se o próprio casarão continuasse oferecendo suas superfícies para que outras histórias aconteçam.

Talvez seja isso que mais me interessa na curadoria da LoveNOX: não separar a arte daquilo que acontece na vida. A casa também recebe performances, fotografia, cinema, biblioteca, noites temáticas, projetos de prevenção, distribuição de PrEP e testagem de HIV e IST. É um espaço de educação, acolhimento e pertencimento. Um lugar pensado para que diferentes corpos possam existir sem precisar pedir licença para entrar.

E talvez uma casa seja isso: aquilo que continua guardando alguma coisa depois que as pessoas vão embora, como nosso Suzário, espaço de homenagem aos que ajudaram e já partiram.

Uma parede guarda uma fotografia. Uma fotografia guarda um corpo. Um corpo guarda uma noite. E uma noite, quando encontra a arte, pode acabar ficando para sempre.

É sobre essas histórias — e sobre as coisas que continuam acontecendo entre elas — que quero começar a escrever aqui.

Fotos: André Liarte